Lava Jato já tem R$ 15 bi de dívidas na Justiça
Josette
Goulart
O
endividamento e a dificuldade financeira das empresas envolvidas na Operação
Lava Jato ou listadas pela Petrobrás em formação de cartel começam a aparecer
com mais clareza nos processos de recuperação judicial que estão chegando à
Justiça. Pelo menos cinco empresas já somam R$ 15 bilhões em reestruturação de
dívidas. Esse valor pode praticamente dobrar com a expectativa de que, em
breve, a Schahin Óleo e Gás, com dívida de US$ 4,5 bilhões (R$ 14 bilhões, pelo
câmbio de quinta-feira), também peça recuperação judicial.
Entre os
advogados de credores ou devedores, de dez diferentes bancas de advocacia,
ouvidas pelo Estado, é praticamente unânime a percepção de que a lista
bilionária não vai parar de aumentar tão cedo. Os processos, dizem, tendem a se
alastrar para outros grupos, como estaleiros e até redes de postos de gasolina.
Esse cenário pessimista se deve ao fato de que o mercado de crédito se fechou
ou encareceu abruptamente para as empresas ligadas às investigações. Na medida
em que as dívidas dessas companhias estão vencendo, o desequilíbrio do fluxo de
caixa vai ficando mais evidente e a opção da recuperação judicial, mais
atraente.
Até
agora, entre as empresas de alguma forma envolvidas na Lava Jato, recorreram à
recuperação judicial as construtoras OAS, com dívida de R$ 8 bilhões, Galvão
Engenharia (R$ 1,6 bilhão) e Alumini Engenharia (R$ 1 bilhão) e as fornecedoras
de equipamentos Iesa (R$ 3,5 bilhões), do grupo Inepar, e Jaraguá Equipamentos
(R$ 700 milhões). A expectativa é de que o grupo Schahin também decida em breve
sobre um pedido de recuperação. A construtora e a holding estão deficitárias. A
empresa de óleo e gás tem um fluxo grande de receitas no longo prazo, mas para
este ano o descasamento entre receita e dívida está em US$ 1 bilhão.
O último
pedido foi registrado pela Justiça paulista na semana passada pelo grupo OAS, e
já figura entre as maiores recuperações do País. A via judicial deve facilitar
a venda de ativos do grupo, pois tira risco de sucessão de dívidas para
potenciais compradores. Também na recuperação da Galvão a venda de ativos pode
ser uma saída. A empresa tem concessões de rodovias e saneamento que interessam
a investidores. Para Ivo Waisberg, do CWTP Sociedade de Advogados, esta é uma
oportunidade para compradores de ativos, que podem comprar sem risco de
sucessão de dívidas.
Dinheiro
novo. No atual cenário de escassez
financeira, os grupos que não tiverem ativos para vender podem acabar em
falência. Gláucia Coelho, do escritório Machado Meyer, diz que
qualquer processo de recuperação requer obrigatoriamente dinheiro novo, seja
por novos financiamentos ou pela venda de ativos.
Os novos
financiamentos ficam mais limitados com o cenário de escassez de crédito. Mas,
além disso, como lembra o sócio da Deloitte, que atua como administradora
judicial em 50 processos, os bancos fogem desse tipo de crédito, pois a cada
real emprestado é preciso provisionar um real no balanço.
O
advogado Thomas Felsberg diz que há uma dificuldade extra no caso de
recuperação de empresas envolvidas na Lava Jato: as multas que podem ser
aplicadas em função das denúncias de corrupção ou cartel. A depender do valor,
a recuperação fica completamente inviabilizada. Felsberg está à frente da
recuperação da Iesa. Boa parte da dívida de R$ 3,5 bilhões da empresa já foi
renegociada com a entrada da companhia no programa de refinanciamento da
Receita Federal.
IMG 01- O Estado de S. Paulo - 06.04.2015, p. B7